CPI da Covid no Senado: os efeitos da investigação no cambaleante governo Bolsonaro

 Vem do Yahoo! uma boa reportagem trazendo um breve resumo do que acontece na chamada CPI da Covid no Senado, que investiga atos - e a falta deles - na condução da pandemia no Brasil:


Após três semanas de atuação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, o saldo para o governo de Jair Bolsonaro não é nada positivo, avaliam analistas políticos ouvidos pela BBC News Brasil.

Se por um lado as testemunhas ouvidas não trouxeram revelações bombásticas sobre a atuação federal na pandemia, de outro os depoimentos serviram para detalhar com mais profundidade falhas da gestão Bolsonaro que já eram conhecidas, como a demora para fechar contratos na compra de vacinas e a reação insuficiente ao colapso do sistema de saúde do Amazonas.

O presidente já enfrenta o desgaste do elevado número de vítimas da pandemia (são quase 450 mil mortos no país, dado sempre repetido pelos senadores na CPI), além da crise econômica, com desemprego e inflação altos.

Pesquisa do Instituto Datafolha, que nos dias 11 e 12 de maio realizou presencialmente 2.071 entrevistas no país, apontou que a avaliação negativa do governo Bolsonaro estava em 45%. Já os que aprovam sua gestão eram 24%, enquanto a avaliação regular ficou em 30%.

O mesmo levantamento mostrou que, se a eleição fosse agora, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrotaria Bolsonaro no segundo turno presidencial por 55% a 32%.

Já uma pesquisa mais recente do Instituto Ideia para a revista Exame, divulgada na sexta-feira (21/05), indica que 50% dos brasileiros avaliam o governo Bolsonaro como ruim ou péssimo, enquanto 24% consideram a gestão ótima ou boa e outros 22% a julgam regular.

Nas três primeiras semanas, foram ouvidas oito testemunhas: os ex-ministros da Saúde Henrique Mandetta, Nelson Teich e Eduardo Pazuello; o atual chefe da pasta, Marcelo Queiroga; o presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres; o ex-secretário de Comunicação do governo Fabio Wajngarten; o ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo; e o gerente-geral da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo.

O próximo depoimento, na terça-feira (25/05), é o da secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministerio da Saude, Mayra Pinheiro, grande entusiasta do "tratamento precoce" — um coquetel de medicamentos sem eficácia comprovada contra covid-19 que inclui substâncias como cloroquina, azitromicina e invermectina.

Com seu depoimento, os senadores querem detalhar melhor as ações do governo na promoção desses remédios ineficazes.

O executivo da Pfizer detalhou cinco ofertas para a venda de 70 milhões de doses de vacinas feitas ao governo entre agosto e novembro do ano passado, que foram ignoradas pela administração Bolsonaro. Somente em março desse ano, o Ministério da Saúde firmou contrato para compra de 100 milhoes de doses da farmacêutica.

O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, por sua vez, negou que o governo tenha deixado de responder ofertas da Pfizer no ano passado e culpou as cláusulas do contrato pela recusa às propostas.

Segundo o ex-ministro, o governo não concordava com exigências como a isenção de responsabilidade por efeitos colaterais, transferência do fórum de decisões sobre questões judiciais para Nova York, pagamento adiantado e não existência de multa por atraso de entrega.

No entanto, embora Pazuello negue que não tenha respondido à Pfizer, a CPI teve acesso a dez e-mails enviados pela empresa a autoridades do Ministério da Saúde no ano passado que registravam a falta de resposta às ofertas e insistiam por algum retorno. As mensagens obtidas pela comissão são sigilosas, devido a contrato da Pfizer com o governo, mas foram reveladas pelo jornal Folha de S.Paulo nesta sexta-feira (21/05).

A questão da demora na obtenção das vacinas, nota Cortez, voltará ao foco da CPI com o depoimento do diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas. Ele já foi convocado, mas a data de participação ainda não está confirmada. Por rixa política com o governador de São Paulo, João Doria, Bolsonaro resistiu em assinar a compra da CoronaVac com o instituto, que é um órgão paulista.


Falta de Oxigênio em Manaus

Para Augusto de Queiroz, analista do Diap, outro momento importante da CPI foi a participação do ex-ministro Ernesto Araújo (Relações Exteriores). Na sua avaliação, seu depoimento evidenciou a falta de atitude do governo para providenciar o transporte de oxigênio a Manaus em janeiro, quando a carência do gás e a falta de leitos levou ao colapso do atendimento aos pacientes de covid-19. Naquele mês, morreram 3.536 pessoas de covid-19 no Amazonas, um recorde para o Estado.

Araújo afirmou à CPI que o governo dos Estados Unidos ofereceu um avião cargueiro para trazer oxigênio ao Amazonas. Segundo o ministro, isso não ocorreu porque o governo estadual não respondeu sobre as especificações do oxigênio necessário

Ao ouvir o ex-ministro, o senador Eduardo Braga (MDB/AM) disse que a omissão do governo do Amazonas era algo "criminoso", mas frisou que o Ministério da Saúde também teria responsabilidade de fornecer essas informações e viabilizar a vinda de oxigênio dos Estados Unidos. "É mais criminoso ainda: havia o avião e não foi usado para salvar vidas", ressaltou o senador.

Além disso, Araújo foi pressionado sobre a falta de contato do governo brasileiro com o governo venezuelano para trazer oxigênio de lá. Houve uma doação do gás feita por terra pelo país vizinho, mas a gestão Bolsonaro não fez qualquer movimento para viabilizar o transporte aéreo de mais doações ou compras de oxigênio da Venezuela.

Questionado pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), o ex-chanceler admitiu que não fez qualquer contato com a Venezuela, nem mesmo para agradecer a doação.


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